domingo, 24 de maio de 2009

Ruídos de Comunicação

Ubiracy de Souza Braga*

O direito dos feirantes em utilizar a Praça Pedro II, conhecida como da Sé, das 15 horas do último domingo até às 7 horas da manhã, parece ter irritado a prefeita Luizianne Lins que de forma intransigente determinou o “fim da feira” naquele logradouro público. Mas o que está em jogo nestas relações de poder? Aparentemente “uma série de ruídos de comunicação” entre governo e governados; entre legitimidade e legalidade; ou, sobre o controle do espaço público pela temerosa AMC. A tese da “legitimidade da ordem” sempre diz respeito ao discurso que diz a lei: “vão controlar o espaço público para evitar a presença de...” e assim por diante.

Sociológica e juridicamente falando estamos diante de um busílis: a) Nem todo processo de comunicação é um processo de trabalho, mas todo processo de trabalho é um processo de comunicação. E isto fica provado pela jornada de trabalho contraída pela relação espaço-tempo na praça da Sé: das 15h00 min de domingo às 7: 00 horas da manhã seguinte; b) No mês de abril no Ceará foram criados 3.230 empregos, mas em contrapartida, em relação ao número de assalariados com carteira assinada em março, a elevação em abril chegou a 0,39%; c) as recentes intervenções da Polícia Federal no Estado são crescentes: a) com prisão de pessoas por posse e distribuição de pornografia infantil na internet – rede mundial de computadores; b) com a chamada persistência do “turismo sexual” propriamente dito.; c) com o tráfico de seres humanos e de drogas para o exterior, para não mencionarmos a presença do trabalho escravo.

Pelo exposto, notamos que são inúmeros os “ruídos de comunicação” no perímetro urbano da cidade de Fortaleza. Contudo, parece-nos que o calcanhar de Aquiles das políticas públicas não se resolve com a barganha, com o “savoir-faire” na política. Vimos isso com a greve dos professores do ensino médio; vimos isso com a “operação tapa-buracos”; vimos isso com a construção do hospital da mulher; vimos isso com a licitação para pagamento de honorários de artistas nas festividades de reveillon na praia de Iracema; vimos isso com a questão da emissão das carteiras de estudantes, oxalá não haja outras fantasmagorias inclusive na grandiosa festa de carnaval “fora de época”? A pergunta que fica é a seguinte: por em foco a política que determina “o fim da Feira da Sé” serve pra encobrir as tropelias da prefeitura?

* Sociólogo, Cientista Político, Comunicólogo. Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (uece).

domingo, 26 de abril de 2009

Ajustando o Foco das Lentes: O martírio de Tiradentes

Ubiracy de Souza Braga[i]

Escrever não é certamente impor uma forma de escrita a uma matéria vivida, mas toda forma de escrita representa em si um estilo literário. É discussão longa, decerto, passagem de vida que atravessa o visível e o vivido, é um devir, embora inacabado, em vias de fazer-se, segundo portas, limiares e zonas que compõem o universo inteiro. Ipso facto, um homem sem-vergonha não traz sentido ao escrever, mas inversamente, se concordarmos com a indagação: “a vergonha de ser um homem, haverá razão melhor para escrever?”.
Para o historiador José Honório Rodrigues (1970), Varnhagen é um mestre da história geral do Brasil por várias razões. Metodologicamente falando, vale lembrar, por que como historiador, todos os seus contemporâneos, desde 1878 – data de sua morte e do elogio do escritor cearense Capistrano de Abreu – até os dias de hoje é um historiador incomparável pela vastidão das pesquisas que realizou e dos fatos que revelou; incomparável pela publicação de inéditos que promoveu; incomparável pela perseverança com que caminhou pelos caminhos da história brasileira, até então nunca palmilhados; incomparável pela obra preliminar que antecede sua História do Brasil; incomparável por esta mesma História Geral, que desconhecia antecessores nacionais; incomparável, ainda, pela própria obra complementar que supre lacunas e amplia o horizonte do conhecimento; incomparável, finalmente, porque a obra parcial, como a História dos Holandeses no Brasil ou a História da Independência, representa, na sua época, um novo avanço historiográfico e uma nova aquisição da consciência nacional.
Realmente, a História geral do Brasil contém como revelação de fatos mais do que se pode esperar o leitor desavisado. O que é desastroso, para alguns críticos, mesmos nos dias de hoje, diz respeito ao fato de que, “a distribuição da matéria não obedece a critérios rigorosos; segue mais a cronologia que a temática; a intitulação dos capítulos é inexpressiva, pois mais esconde que revela as novidades que contêm”. Porque é mais cronológica que temática, na concepção geral, é também expressão de um processo construtivo mais estático que dinâmico. Quando repete o mesmo tema – os progressos do Brasil, por exemplo, nos séculos XVI, XVII e XVIII – inspirado, creio eu, no historiador inglês Robert Southey, que assim o fizera, a dinâmica do processo histórico se caracteriza, tendo em vista que “o grande tema é a obra da colonização portuguesa no Brasil”.
Para concordarmos com a análise de Rodrigues, leitor de Varnhagen entendemos que, “em toda a obra, queira ou não Varnhagen, o sentido da História do Brasil se revela na luta até o extermínio dos índios, na submissão dos escravos negros, nas rebeliões, nas insurreições, no terror oficial da política portuguesa, na insegurança de todos, especialmente da maioria, na força dos Potentados, nas grandes fomes e grandes epidemias [que surgiram com a presença dos invasores portugueses etc.], nas fraquezas da justiça, enfim, no solo encharcado de sangue”.
O longo e sinuoso caminho colonial da História do Brasil não foi escondido por Varnhagen, pois quem ler integralmente a História geral do Brasil verá que nela não se foge à verdade de que no Brasil o grande problema foi sempre garantir e assegurar a maioria contra os abusos e os excessos da minoria: perseguições políticas e religiosas, discriminações raciais, censura, absolutismo, falta de ensino, de imprensa, somam-se aos excessos dos castigos exemplares dados às maiorias conservadas sempre em estado de “minoridade política e civil”. Abusos das autoridades, lutas entre governadores e magistrados, a corrupção e relaxação das minorias dirigentes – os governos longos, de trinta, de vinte e cinco, de quinze anos não são exceção – dão ipso facto à História geral do Brasil, escrita, como é sabido por um conservador, um sentido revelador. Ou seja, não é surpresa que um homem tão solidamente fortificado na sua ideologia conservadora e na sua política pragmática, que jamais colocou o debate no terreno abstrato e absoluto da Justiça, mas no da convivência e da utilidade, como observou Capistrano de Abreu, deixasse ocultas as fraquezas essenciais do colonialismo.
A opinião de F. A. de Varnhagen não era isolada, mas representativa da política colonial portuguesa dominante, como da época em que escrevia o tenente norte-americano Herdon contou a Handelmann, que um português do Pará lhe dissera, em 1852, que em matéria de reforma dos índios: “o melhor seria enforcá-los a todos” (sic). E de fato, muitas vezes é tal a aversão de Varnhagen às “populações brasileiras mais baixas e modestas”. Ou, melhor dizendo, na expressão de Slavoj Žižek no sentido psicanalítico do termo, “a inveja do gozo do outro”, onde “trechos de sua História se convertem em noticiário de ocorrências policiais” (...). “O que não impede que até as futilidades participem de seu temário (...) o que não é muito estranho à nossa historiografia menos qualificada”.
Faltava-lhe, como observou Capistrano de Abreu, “o espírito compreensivo e simpático, que o tornasse contemporâneo e confidente dos homens e dos acontecimentos”. Com as novas edições ele recua em algumas de suas opiniões como são os casos das análises sobre a Inconfidência Mineira, para o que nos interessa, e a Revolução de 1817 last but no least que sofreram “retoques importantes”. Ou seja, reviu sua (ex)posição nessas rebeldias de “gente qualificada” e não nas outras, nas “dos índios, nas dos negros”, nas da “gente miúda”, mal comparando como a de 1789, cujo movimento lhe faz tremer a pena de indignação. Na 1a edição de sua obra maior chamara Tiradentes de “insignificante”; na 2a edição melhora o tratamento dado a Tiradentes e escreve que “ele se adiantou a aceitar para si a responsabilidade desta nobre tentativa e as glórias do martírio que hoje lhe confere a posteridade” (sic).
Não devemos perder de vista que até o século XVII, com o absolutismo monárquico, o suplício, para lembrarmo-nos do filósofo Michel Foucault, quando tematiza “a ostentação dos suplícios” não desempenhava o papel de reparação moral; tinha, antes, o sentido de uma “cerimônia política”, o que lembra-nos certamente o lugar que ocupou o coliseu, do grego kolossaîon, pelo latim, colossaeu, anfiteatro da antiga Roma, objeto de sadismo como analisou brilhantemente o psicólogo Eric Fromm, mas que não trataremos agora. O delito como tal devia ser considerado como um desafio à soberania do monarca: ele perturbava a ordem de seu poder sobre os indivíduos e as coisas. “O suplício público, longo, terrificante, tinha exatamente a finalidade de reconstituir essa soberania; seu caráter espetacular servia para fazer participar o povo do reconhecimento dessa soberania”.
Mas como que numa figura de recalque, se por um lado F. A. de Varnhagen descreve a corajosa atitude de Joaquim José da Silva Xavier (1748-1792), o Tiradentes no suplício, por outro, continua a chamar de Piedosa aquela Rainha de “execrável memória”. De outra parte, em “Exaltação a Tiradentes”, os compositores Estanislau Silva, Mano Décio da Viola e Penteado, dizem assim homenageando o bravo alferes: “Joaquim José da Silva Xavier/Morreu a vinte e um de abril/Pela Independência do Brasil/Foi traído e não traiu jamais/A Inconfidência de Minas Gerais/Joaquim José da Silva Xavier/Era o nome Tiradentes/Foi sacrificado pela nossa liberdade/Este grande herói/Para sempre há de ser lembrado”. Nesta música, Tiradentes foi interpretado de Cauby Peixoto à la Elis Regina, já que ela foi uma mulher especial em voz e talento.
Ou seja, o que se pode extrair daí é que, a execução de Tiradentes também está inscrita na liturgia do poder que se materializava nas práticas penais do Ancién Regime. Nela a violência sobre o corpo do condenado se exerce depois da morte pela forca e atinge de forma desdobrada o corpo do réu com o corte da cabeça, o esquartejamento e a exposição, e atinge sua família, sua memória. Portanto, condenam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, alferes que foi da tropa paga da capitania de Minas, a que com baraço e pregão seja conduzida pelas ruas públicas ao lugar da forca, “e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada à Vila Rica, aonde em o lugar mais público dela será pregada em um poste alto até que o tempo a consuma; o seu corpo será dividido em quatro quartos e pregado em postes pelos caminhos de Minas, o sítio da Varginha e de Sebolas, aonde o réu teve as suas infames práticas”.
Contudo, ao contrário de seus companheiros, também ricos e letrados, Tiradentes, era um homem considerado “do povo”, ou mesmo poderíamos antecipar, etimologicamente falando, a idéia de “populismo”, contida na obra da escritora russa Alexandrovna Tvardoviskaia (1873), se se quer entender a representação social do “popular” como figura do conhecido. Isto porque notadamente seu saber era de experiência, prático, feito em sua vida de tropeiro, que jogou um papel fundamental para o transporte de mercadorias até o século XIX; de minerador, onde nos dias de hoje Carajás demonstra o submundo do trabalho na exploração do minério; de curador de doentes, de dentista afamado e de alferes. Mas, principalmente, para o que nos interessa, de conspirador, como ocorrera em notáveis anarquistas europeus, como o caso de Enrico Malatesta (Itália), em seus Escritos Revolucionários, Mikhail Bakunin (Rússia), Escritos contra Marx, Deus e o Estado e outros tantos reunidos recentemente na coletânea Os Anarquistas julgam Marx, como: Alexandre Skirda, Maurice Joyeux, Rudolf Rocker, Gastoon Leval, Daniel Guérin, Jean Barrué, Michel Ragon, Eric Vilain, para ficarmos nestes exemplos.
Por essas qualidades de humanista e por seu talento político de estadista, ultimamente revelado pelo chamado “revisionismo histórico”, foi ele que se fez “cabeça da conspiração”, impondo seu comando a tantos homens poderosos e letrados da elite política de Ouro Preto. Tiradentes era por todos proclamados como o principal, por seu fervor republicano; por sua confiança nos mazombos brasileiros para criar um país próspero e fazer dele uma grande nação; por sua temeridade para ações subversivas, contra a ordem monárquica vigente e todo o seu aparato de dominação, opressão e velhacaria. A fronda dos mazombos resgata a história esquecida ou escassamente conhecida do que constitui, talvez, o primeiro movimento social brasileiro de contestação ao sistema colonial português. Mutatis mutandis, em Pernambuco, já devastado por um quarto de século de guerra e dominação holandesa, as aspirações autonomistas, num percurso de mais de cinqüenta anos, culminariam na guerra dos Mascates e seriam esmagadas, como é sabido, na repressão desencadeada pela Corte de Lisboa.
Todos tinham certeza de que, unidos, poderiam por as riquezas do Brasil a serviço de seu próprio povo. Queriam criar aqui uma República como a que a América inglesa estava criando no Norte, com autonomia e liberdade, na busca de sua própria felicidade, como ficou bem representado no cinema, com a Guerra Civil americana, quando um tenente vai para o território ainda dominado pelos índios Sioux. Trata-se aqui de um épico intimista, profundamente ecológico, no sentido de Fritjof Capra, Ilya Prigogine, p.ex. e defensor da cultura indígena; mais do que isso porque toca na consciência de um Kevin Costner, nestes dias, através de um projeto pessoal tendo sua estréia como cineasta (cf. Dances With Wolves, EUA, 1990, 180 min.). Aspirações elementares estas, poder-se-ía dizer hoje, se elas não fossem tão atuais e incumpridas. Ou não é verdade que para muita gente é ousado demais pensar no desenvolvimento autônomo do Brasil, na sua reconstrução para servir ao seu próprio povo? Talvez nosso último guardião tenha sido o líder político liberal radical Leonel de Moura Brizola (1922-2004), porque foi “um influente político brasileiro, controverso, carismático, mobilizador”, como é descrito exemplarmente, mais uma vez pelo livro El Caudilllo (cf. Leite Filho, 2008; 544 páginas), lançado na vida pública por Getúlio Dornelles Vargas (1883-1954).
Os conspiradores mineiros inspiravam-se tanto no exemplo norte-americano de construção do pensamento liberal radical, como nas idéias libertárias que corriam o mundo e eclodiriam, simultaneamente, com a Revolução Francesa. Sua fé maior era no direito dos povos a viverem em liberdade, governando-se a si mesmos. Detestavam a tirania colonial portuguesa, como fora analisada pelo historiador Francisco Calazans Falcon no livro Despotismo Esclarecido, ou, em textos menores, como As Práticas do Reformismo Pombalino no Campo Jurídico, ou ainda, em Limites Coloniais do Absolutismo Esclarecido – a Época Pombalina no Brasil, e outros, tendo sua forma brutal e arbitrária de governar e sua ganância sem limites.
Nestas bases, afirma o antropólogo Darcy Ribeiro (1994), é “que se conjurou para planejar uma República brasileira, livre, soberana e próspera”. Ela teria uma bandeira branca, tendo no centro um rublo triângulo, evocativo da santíssima Trindade, e inscrito o lema vigiliano: Libertas quae sera tamen. O hino nacional seria o Canto Genetilíaco de Alvarenga Peixoto, poeta fluminense, que estudou no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janeiro, assim como na Universidade de Coimbra, em Portugal, onde conheceu o poeta Basílio da Gama de quem se tornou um grande amigo. Exerceu o cargo de Juiz de Fora da Vila de Sintra em Portugal, bem como o de Senador pela cidade mineira de São João Del-Rei.
Ipso facto Tiradentes tinha certeza de que se podia criar no Brasil uma República melhor e mais próspera que a da América inglesa, porque fôramos mais bem dotados pela natureza, contando com os recursos minerais de imensa riqueza, além de termos cidades mais belas e mais cultas do que as norte-americanas. Destemido e ardente, andava sempre a dizer para quem quisesse ouvir: “Se todos quisermos poderemos fazer deste país uma grande nação” (sic). Também repetia com freqüência: “Ah! que fossem todos do meu ânimo”. O Brasil seria dos brasileiros. Irritado com os covardes, exclamava: “Vosmicê é daqueles que têm medo do bacalhau!” (sic) –, instrumento de tortura utilizado no período colonial. Tudo isso se lê nos Autos da devassa.
Varnhagen não foi só injusto, frio ou obscuro, além de preconceituoso, sem generosidade, sem compreensão para com todos os rebeldes, os inconformados, os perseguidos, especialmente os das “classes mais modestas”, na falta de melhor expressão, como também o fora, na literatura, o brioso escritor e fundador da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis, que no dia 22 de maio de 1892, no jornal A Semana, escreve com ironia sobre o novo herói da República, Tiradentes, que ganhou proeminência só a partir de 1890:
Esse Tiradentes se não tomar cuidado em si acaba inimigo público. Pessoa cujo nome ignoro escreveu essa semana algumas linhas a fim de retificar a opinião sobre o grande mártir da inconfidência (...). Não será possível imaginar que, se não fosse a indiscrição de Tiradentes, que causou o seu suplício e o dos outros, teria realidade o projeto? Daqui a espião da polícia é um passo (...). Mas ainda restará alguma coisa ao alferes; pode-se-lhe expedir a patente de capitão honorário (...). Antes isso que nada (...). O certo, porém, é que o culto a Tiradentes não se iniciou nessa época. Segundo Carvalho, um dos marcos do processo data de 1872, quando foi publicada a obra de Joaquim Norberto de Souza e Silva – História da conjuração mineira -, que teria gerado grande controvérsia. No entanto, foi só após a República que se intensificou o culto cívico a Tiradentes, e apenas em 1890 a personagem virava feriado nacional (...). Além disso, foi também na década de 90 que a figura de Tiradentes, até então pouco retratada, passou a se associar à imagem de Cristo. Décio Vilares distribuiu para o desfile de 1890 uma litografia em que aparecia o busto de Tiradentes, cuja placidez era a própria representação de Jesus Cristo. Em 1892, o mesmo artista voltou a retratar o inconfidente, dessa feita em uma pintura a óleo. Outro artista, ainda – Aurélio de Figueiredo -, terminaria uma nova tela de título significativo: O martírio de Tiradentes. Isso sem falar da representação realista de Pedro Américo, de 1893, que mostra Tiradentes esquartejado sobre o cadafalso” (cf. Jornal A Semana: Rio de Janeiro, 1890).

[i] Sociólogo, Cientista Político. Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

sábado, 27 de dezembro de 2008

Per Música

No meio do estrépito
E estrondos que atroam
De ardores em fúrias
Contendem, reboam,
Eu penso nas cousas suaves e tênues
Nas cousas que fogem, que nadam, que voam
Enquanto sem ânimo
Os corpos estuam,
E as almas em ânsias
Em vão se extenuam,
Eu penso nas cousas que amamos em êxtase
Em cousas que passam, deslizam, flutuam
E quando, entre mágoas,
Despeitos e dores
Refervem os ódios
E frios rancores
Eu penso nas cousas de um mundo quimérico
Um mundo de afagos, carícias, amores.

Bruno Jaci

(O Pão, n°7, p.2-3, 1 jan. 1895)*

*Conferir em FIUZA, Regina Cláudia Pamplona. O Pão… da Padaria Espiritual. Fortaleza, 1992, p.35-36.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Entrevista – FRÉDÉRIC ROSSIF*

- Você viajou pelo mundo, percorreu as regiões mais diversas, conheceu gente de todas as partes. Arriscaria uma definição global, geral, da aventura humana?

Frédéric Rossif (FR): Diria talvez que o homem, em qualquer lugar, é um nômade do amor… Nessa breve luta que é nossa passagem sobre a terra, diante da imensidão do tempo, nós buscamos. Fazemos o percurso de um combatente em busca de quê? De alguns oásis – não para descansar, mas para tentarmos ser felizes. A característica do deserto é oferecer-nos miragens, sem nos devolver qualquer eco. Perseguimos então a miragem sempre mais distante, cada vez mais distante, sem jamais obtermos qualquer resposta. No final de tudo, alcançamos a miragem que, para alguns, é o paraíso; para outros, a paz eterna; para outros ainda, a morte biológica. A travessia da vida oferece alguns momentos de amor, que são, entretanto, oásis de felicidade, num deserto sempre indiferente. O importante é indagar, não é obter respostas.

- Você da fala da vida, do amor, da morte, como alguém que já esteve face a face com a morte…

FR: Foi no Irã, durante a filmagem de Óperas Selvagens. Estávamos seguindo uns lobos. Há magníficos lobos nas montanhas das fronteiras entre Irã e Iraque. Havíamos localizado um lobo com sua fêmea e seus filhotes, e as seguíamos de helicóptero. O lobo andou mais devagar, para incitar-nos a segui-lo e permitir que a fêmea e suas crias se salvassem. Eu disse: “Façamos o jogo dele, vamos ajudá-lo”. Passamos a segui-lo, deixando que a loba e os filhotes escapassem. É uma característica do lobo: sacrificar-se para salvar os outros. É um animal tímido e corajoso. Em certo momento, nosso lobo fez um brusco desvio. Para segui-lo, o helicóptero fez meia-volta e bateu na montanha. O motor rateou. Durante alguns segundos – três ou quatro, no máximo – tivemos um grande medo. O medo deve liberar no cérebro alguns elementos químicos que, ao se misturarem, estabelecem um estranho contato… Durante esses três segundos, vi a minha vida inteira desenrolar-se diante de mim, com incrível vagar e precisão. É uma outra percepção do tempo.

- A morte, assim como as borboletas multicoloridas, é o tema de um de seus filmes mais conhecidos, Morrer em Madrid.

FR: Morrer em Madrid já tem muito tempo. Esse filme foi bastante atacado quando estreou. Pela extrema-direita, naturalmente, mas também pela extrema-esquerda. Por todos aqueles que só vêem o claro e o escuro na vida. E que ignoram que, no pior dos canalhas, pode haver um esplendor de poesia que precisamos saber captar no momento exato. A verdade da vida, felizmente, é multicolorida. A sutileza e os contrastes das situações históricas são tamanhos que a história jamais se assemelha a uma ideologia.

- Não existem apenas o claro e o escuro, mas, mesmo assim, em alguns de seus filmes, há muito de escuro.

FR: É preciso tentar explicar o escuro mais escuro. Por exemplo, ao apresentar a ascensão do nazismo, expor a assustadora inflação: um pedaço de pão que valia bilhões de marcos. A humilhação também. Dizia Dostoiévski: “Quem sofre terrivelmente faz coisas terríveis”. Quando não consideramos a humilhação acumulada, é impossível compreendermos a aparição do nazismo há 50 anos – ou, atualmente, o problema do terrorismo. A humilhação é uma das coisas que fazem com que não se preste mais atenção à vida. Não apenas aceita-se arriscá-la, mas também não se lhe dá atenção. A humilhação é a impalpável estrutura que, há séculos, impede que os povos do Oriente e do Ocidente se encontrem.

- Dir-se-ia que, para você, comunicação é sinônimo de poesia…

FR: A comunicação do sonho, da imanência, é para nós cada vez mais necessária, cada vez mais indispensável. Mas deve-se logo acrescentar: ela só pode desenvolver-se num regime democrático. A democracia, como dizia Churchill, é o pior dos regimes, com exceção de todos os outros. A comunicação na democracia é a pior das comunicações, mas não há outra forma de se comunicar verdadeiramente. Simplesmente porque é necessária a dialética do sim e do não, da provocação e da resposta, que confere ao nosso discurso a justa medida, a parte do sol e da sombra.

- Que tem a dizer a quem o considera demasiadamente perdido nas nuvens da poesia, sem os pés na terra, enquanto o mundo está repleto de sofrimentos, dramas e convulsões?

FR: Não há ninguém mais realista que os poetas. Em 1936, Paul Eluard escreveu: “A Terra é azul como uma laranja”. Todos riram. Quando o primeiro engenho espacial americano, o Pioneer, fotografou a Terra, “viu-se”, que a terra parecia uma laranja azul. Eluard antecipara-se ao Pioneer! Somente os poetas são realistas. Eles vão ao essencial.
Isso me faz pensar numa entrevista que realizei com Mão Tse Tung. A última pergunta que lhe fiz era a seguinte: “Senhor Presidente, acredita que o comunismo tenha um futuro político na China?”. Ele me deu uma resposta negativa. Isso aconteceu no salão do Palácio dos Imperadores, na Cidade Proibida, repleto de imensas poltronas cobertas com capas brancas. Atrás de Mao estavam Lin Biao e Zhou Enlai. À resposta do Presidente, Lin Biao teve um sobressalto, Zhou Enlai manteve-se impassível – o que já demonstrava a diferença entre os dois.
Mao prosseguiu: “Sabe o que são, para nós, 250 ou 300 anos? Apenas um terço da era dos Tang… Os Tang reinaram neste país durante 1000 anos”. Essa resposta de Mao era sutil e bela. Creio que ele quis dizer-me: para você, ocidental, que é o futuro político? A próxima eleição? Para nós o futuro político são três séculos…
E pensei: que extraordinária contribuição à história e à cultura do mundo, ao conhecimento profundo dos homens e das coisas, a China liberada poderá oferecer, simultaneamente inspirada nos preceitos de Confúcio, do Tao, dos antigos poetas chineses, de Sun Yat Set e de Mao Tse Tung… Esse magnífico facho da história universal, há 5000 anos tão isolado do resto da humanidade, refulgirá então para nós, ofertando-nos sua memória como um inestimável tesouro perdido e finalmente reencontrado…

* “Entrevista – Frèdèric Rossif” In: CÓCCO, Maria Fernandes. ALP, 8 - análise, linguagem e pensamento: a diversidade de textos numa perspectiva socioconstrutivista. São Paulo: FTD, 1995.

domingo, 10 de agosto de 2008

CARTA AOS "PUROS"

Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros
E em cujos olhos queima um lento fogo frio
Vós de nervos de nylon e de músculos duros
Capazes de não rir durante anos a fio.

Ó vós, homens sem sal, em cujos corpos tensos
Corre um sangue incolor, da cor alvar dos lírios
Vós que almejais na carne o estigma dos martírios
E desejais ser fuzilados sem o lenço.

Ó vós, homens iluminados a néon
Seres extraordinariamente rarefeitos
Vós que vos bem amais e vos julgais perfeitos
E vos ciliciais à idéia do que é bom.

Ó vós, a quem os bons amam chamar de os Puros
E vos julgais os portadores da verdade
Quando nada mais sois, à luz da realidade,
Que os súcubos dos sentimentos mais escuros.

Ó vós que só viveis nos vórtices da morte
E vos enclausurais no instinto que vos ceva
Vós que vedes na luz o antônimo da treva
E acreditais que o amor é o túmulo do forte.

Ó vós que pedis pouco a vida que dá muito
E eriges a esperança em bandeira aguerrida
Sem saber que esperança é um simples dom da vida
E tanto mais porque é um dom público e gratuito.

Ó vós que vos negais a escuridão dos bares
Onde o homem que ama oculta o seu segredo
Vós que viveis a mastigar os maxilares
E temeis a mulher e a noite, e dormis cedo.

Ó vós, os curiais; ó vós, os ressentidos
Que tudo equacionais em termos de conflito
E não sabeis pedir sem ter recurso ao grito
E não sabeis vencer se não houver vencidos.

Ó vós que vos comprais com a esmola feita aos pobres
Que vos dão Deus de graça em troca de alguns restos
E maiusculizais os sentimentos nobres
E gostais de dizer que sois homens honestos.

Ó vós, falsos Catões, chichisbéus de mulheres
Que só articulais para emitir conceitos
E pensais que o credor tem todos os direitos
E o pobre devedor tem todos os deveres.

Ó vós que desprezais a mulher e o poeta
Em nome da vossa vã sabedoria
Vós que tudo comeis mas viveis de dieta
E achais que o bem do alheio é a melhor iguaria.

Ó vós, homens da sigla; ó vós, homens da cifra
Falsos chimangos, calabares, sinecuros
Tendes cuidado porque a Esfinge vos decifra…
E eis que é chegada a vez dos verdadeiros puros.

Vinicius de Moraes,
Cf. em Para viver um grande amor: crônicas e poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. pp.59-60

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O homem; as viagens

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte – ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro – diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto – é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato o é o Sol, falso touro espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só o resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
por o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeita alegria
de con-viver

Carlos Drummond de Andrade*

*Cf. em:
ANDRADE, Carlos Drummond de. Seleta em prosa e verso.
RJ, J. Olympio – Brasília, INL-MEC, 1971.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

GALATÉIAS DE PIGMALIÕES INSEGUROS

Conversávamos noutro dia desses sobre a declaração de uma amiga, eu e outro amigo que também a conhecia bem. Ela manifestava num momento de desabafo seu desejo e atração física por alguém, afirmando querer transar com o cara sem nenhum tipo de envolvimento afetivo pelo mesmo, apenas uma noite de puro sexo. Meu amigo de pronto ficou em choque e numa argumentação no mínimo suspeita discursava sua visão sobre aquilo que acreditava ser a verdadeira essência feminina:

- Este tipo de coisa não é o papel da mulher, pois assim estaria se igualando ao homem. Mulher é o típico sexo frágil, portanto, mais sensível, carinhosa, meiga. Nenhum comportamento semelhante pode ser bem visto por nós homens. Pois este tipo de coisa descaracteriza e contradiz a essência da mulher. Sexo sem afeto é coisa de homem.

Assim, no calor do diálogo percebi que o seu discurso era comum em nossa sociedade. Ele me fez lembrar da lenda romana contada por Ovídio em sua peça “Metamorfose”.

Reza a lenda que um brilhante escultor solitário da Ilha de Chipre, Pigmalião, era assediado pelas mais belas mulheres do lugarejo em que vivia. Certa ocasião, Pigmalião recebe a visita da deusa Afrodite em sonho. Provocada pelos pedidos das mulheres do lugar, Afrodite aparece ao artísta para tentar fazer com que se casasse com alguma delas. Ao acordar inspirado pela beleza da deusa, Pigmalião faz (Galatéia), a mais bela estátua esculpida. Sua obra de arte agora torna-se o objeto de sua paixão. Quando Afrodite retorna para cobrar alguma decisão por parte do artista, ele pede a deusa que faça com que a escultura seja sua esposa. O pedido é atendido, e Pigmalião beija a estátua que prontamente se transforma numa linda mulher de carne e osso. E ambos se amaram para o resto das suas vidas.

O que há de comum entre a lenda de Pigmalião e a convicção do meu amigo sobre a natureza da mulher?

A resposta está no fato de que nós homens sofremos do mal de Pigmalião, inventamos nossas próprias mulheres. Elas são frutos dos nossos devaneios e sonhos machistas. Assim acontece também nos rincões da religião, nosso ocidente machista perpetua a invenção da mulher pelo mito bíblico do gênesis. Esta então seria tirada solidariamente da costela de um solteirão para em seguida enganá-lo e assim parir o pecado.

Ora, sabemos por Flávio Josefo que na sociedade judaica ainda do I sec. d.C. a mulher era por lei considerada inferior ao homem em todas as coisas, pois fora a ele que “Deus” teria entregado o poder. Nos textos religiosos a mulher estava na mesma categoria das crianças, dos surdos, dos cegos, dos deficientes mentais, e dos escravos pagãos. Até filosofia clássica revelou-se misógena, quando pela boca de Aristóteles proclama a mulher como um “Macho deformado” e portanto inferior intelectualmente ao homem.

No “Banquete” de Platão, diálogo que trata do amor, o mais belo discurso é feito por Diotimia que, sendo mulher, reproduzia na íntegra a mensagem divina acerca do amor. Do mesmo modo “as Pitonisas” incapazes de pensar por si mesmas, constituem o canal seguro do escoamento do pensar dos deuses. O fato é que, a misogenia grega e o preconceito judaico prefaciaram as relações de poder no seio da Igreja. Assim, Tertuliano, já nos primeiros séculos do cristianismo acusava as mulheres: “A sentença de Deus é sobre vosso sexo; e seu castigo pesa ainda mais sobre vós. Vós sois a porta do demônio”.

Também sob a pena da fogueira na Idade Média durante quatro séculos, inquisidores com a ameaça de caça às bruxas ensinavam às mulheres como deveriam se comportar: dóceis, recatadas, limitadas ao afazeres domésticos. Somente ao homem era permitida ambição profissional. O medo de ser queimada viva se fez tanto no inconsciente coletivo que a mulher foi inventada e criada num cuidado extremo. Educadas por nossos pais e avós afim de serem aceitas pela sociedade sob as bandeiras do recato.

Obviamente como homem sou também responsável pela invenção de certo padrão de mulher. Confesso, a ideia de uma Dulcinéia de Taboso povoa e muito meu imaginário Quixotesco. No entanto, vemos através de Nietzsche a Habermas que os valores passados por nossa tradição não são eternos. E que portanto, não foi Deus, Alá, Jesus, ou Buda que fez os céus se abrirem descortinando padrões sociais que hoje moldam nosso comportamento. Eles diziam que nosso conhecimento da realidade é condicionado pelo “interesse”, ou seja, a estruturação dos valores a serem vividos pela sociedade está intrisecamente ligada aos anseios do grupo dominante.

Então é importante sabermos que é a sociedade “machista” que limita os espaços da mulher, e por conseqüência não permite a emergência da figura feminina no pensar e no protagonismo de sua ação na construção do mundo.

Mas, se esta sociedade patriarcal arbitrariamente atribui valores e aptidões a ambos os sexos, cabe aqui a relevância da preocupação do meu amigo, e a sua infeliz e desesperada tentativa de classificar a mulher; O que faz da mulher mulher? Qual a competência de sua feminilidade?

Por séculos escritores seguiram inventando as mulheres. No papel, as letras redesenhavam o imaginário que povoaria as mentes de todos nós, leitores e leitoras. As mulheres foram o que eles diziam que eram. As mais variadas nuances da literatura não me deixa mentir:

José de alencar por exemplo, moldou a mulher com diversos rostos, mostrando sempre a represália que sofriam a desobedecerem os padrões estabelecidos; É o caso da personagem Lúcia em Lucíola ou Iracema. Em Machado de Assis surgiu a mulher dissimulada, sedutora, sonsa... Desde Helena e seus segredos, passando por D. Severina e seus braços até a polêmica Capitú. Rubem Braga menos doutrinário constrói a imagem de seus próprios sonhos de Prazer, bela imagem; Quando, na crônica “Não mais aflitos” fala do prazer de contemplar uma mulher sem estar apaixonado.

Também “As Brumas de Avalon”, livro que virou filme, vemos o imperialismo da cultura cristã católica medieval extinguindo a religião dos (druídas), substituindo a entidade sagrada e fértil da deusa pela figura da casta Virgem Maria. A religião dos druídas foi satanizada porque no fundo enfocava aspectos de uma espiritualidade marcadamente feminista (aqui não se deve tomar a palavra pelo termo moderno). Não existia um Deus, mas a deusa (natureza), não existia sacerdotes, mas sacerdotisas. Quem orientava a mística daquela sociedade eram as mulheres, temidas, e portanto, respeitadas não pelo poder que tinham, mas pelo que representavam: O talento criativo e a fertilidade como algo intrínseco à natureza feminina.

As sacerdotisas de Avalon expunham o que todas as mulheres manifestam, a criação ligada à vivência de uma “alma selvagem” que assusta os homens e aos padrões de comportamento impostos. Esse talento feminino é limitado pelo freio social, e quase sempre, estabelecidos por homens inseguros diante de um potencial criador inato ou talento artístico capaz de brilhar. Nas palavras de Simone de Beauvoir vemos a mulher assumir o modelo feminino imposto pela sociedade: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher” “Eu sou aquilo que consegui fazer a partir do que me fizeram”.

Percebemos, nossa visão da realidade feminina foi de tal maneira distorcida que é impossível transcender a meras posições culturais e preconceituosas impressas ao longo da história. Tendo em vista que tudo quanto conhecemos sobre o ser mulher foram aspectos desenvolvidos em detrimento do domínio histórico-social sofrido a milênios. Pois na medida que é inferiorizada, ela passa a crer na própria inferioridade e a perpetuá-la à filhos e filhas enquanto mãe-educadora.

Por isso, acredito que até para a própria mulher foi negado o direito de conhecer-se completamente, já que a mesma sempre foi vista à sombra masculina. Portanto, nós, homens e mulheres devemos admitir nossa total ignorância em relação à competência da alma feminina. Talvez seja por isso que a praticidade masculina aliada à sua ignorância faça com que inventemos nossas mulheres, seja por letras poéticas e misógenas, seja por atitudes e argumentos preconceituosos insuflados por medo de que sua criatividade revele a inferioridade masculina.

Nossa esperança é transcendamos à meros estereótipos míticos, e que no futuro homem e mulher sejam uma só voz a decidir os destinos do Universo. Pois na visão belíssima de Theilhard Chardin, a história evolui no sentido de uma cristificação universal, onde a plenitude do amor esgota as diferenças.

Sem estátuas e sem costelas!

Wellington Araújo
Estudante de Teologia