sábado, 27 de dezembro de 2008

Per Música

No meio do estrépito
E estrondos que atroam
De ardores em fúrias
Contendem, reboam,
Eu penso nas cousas suaves e tênues
Nas cousas que fogem, que nadam, que voam
Enquanto sem ânimo
Os corpos estuam,
E as almas em ânsias
Em vão se extenuam,
Eu penso nas cousas que amamos em êxtase
Em cousas que passam, deslizam, flutuam
E quando, entre mágoas,
Despeitos e dores
Refervem os ódios
E frios rancores
Eu penso nas cousas de um mundo quimérico
Um mundo de afagos, carícias, amores.

Bruno Jaci

(O Pão, n°7, p.2-3, 1 jan. 1895)*

*Conferir em FIUZA, Regina Cláudia Pamplona. O Pão… da Padaria Espiritual. Fortaleza, 1992, p.35-36.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Entrevista – FRÉDÉRIC ROSSIF*

- Você viajou pelo mundo, percorreu as regiões mais diversas, conheceu gente de todas as partes. Arriscaria uma definição global, geral, da aventura humana?

Frédéric Rossif (FR): Diria talvez que o homem, em qualquer lugar, é um nômade do amor… Nessa breve luta que é nossa passagem sobre a terra, diante da imensidão do tempo, nós buscamos. Fazemos o percurso de um combatente em busca de quê? De alguns oásis – não para descansar, mas para tentarmos ser felizes. A característica do deserto é oferecer-nos miragens, sem nos devolver qualquer eco. Perseguimos então a miragem sempre mais distante, cada vez mais distante, sem jamais obtermos qualquer resposta. No final de tudo, alcançamos a miragem que, para alguns, é o paraíso; para outros, a paz eterna; para outros ainda, a morte biológica. A travessia da vida oferece alguns momentos de amor, que são, entretanto, oásis de felicidade, num deserto sempre indiferente. O importante é indagar, não é obter respostas.

- Você da fala da vida, do amor, da morte, como alguém que já esteve face a face com a morte…

FR: Foi no Irã, durante a filmagem de Óperas Selvagens. Estávamos seguindo uns lobos. Há magníficos lobos nas montanhas das fronteiras entre Irã e Iraque. Havíamos localizado um lobo com sua fêmea e seus filhotes, e as seguíamos de helicóptero. O lobo andou mais devagar, para incitar-nos a segui-lo e permitir que a fêmea e suas crias se salvassem. Eu disse: “Façamos o jogo dele, vamos ajudá-lo”. Passamos a segui-lo, deixando que a loba e os filhotes escapassem. É uma característica do lobo: sacrificar-se para salvar os outros. É um animal tímido e corajoso. Em certo momento, nosso lobo fez um brusco desvio. Para segui-lo, o helicóptero fez meia-volta e bateu na montanha. O motor rateou. Durante alguns segundos – três ou quatro, no máximo – tivemos um grande medo. O medo deve liberar no cérebro alguns elementos químicos que, ao se misturarem, estabelecem um estranho contato… Durante esses três segundos, vi a minha vida inteira desenrolar-se diante de mim, com incrível vagar e precisão. É uma outra percepção do tempo.

- A morte, assim como as borboletas multicoloridas, é o tema de um de seus filmes mais conhecidos, Morrer em Madrid.

FR: Morrer em Madrid já tem muito tempo. Esse filme foi bastante atacado quando estreou. Pela extrema-direita, naturalmente, mas também pela extrema-esquerda. Por todos aqueles que só vêem o claro e o escuro na vida. E que ignoram que, no pior dos canalhas, pode haver um esplendor de poesia que precisamos saber captar no momento exato. A verdade da vida, felizmente, é multicolorida. A sutileza e os contrastes das situações históricas são tamanhos que a história jamais se assemelha a uma ideologia.

- Não existem apenas o claro e o escuro, mas, mesmo assim, em alguns de seus filmes, há muito de escuro.

FR: É preciso tentar explicar o escuro mais escuro. Por exemplo, ao apresentar a ascensão do nazismo, expor a assustadora inflação: um pedaço de pão que valia bilhões de marcos. A humilhação também. Dizia Dostoiévski: “Quem sofre terrivelmente faz coisas terríveis”. Quando não consideramos a humilhação acumulada, é impossível compreendermos a aparição do nazismo há 50 anos – ou, atualmente, o problema do terrorismo. A humilhação é uma das coisas que fazem com que não se preste mais atenção à vida. Não apenas aceita-se arriscá-la, mas também não se lhe dá atenção. A humilhação é a impalpável estrutura que, há séculos, impede que os povos do Oriente e do Ocidente se encontrem.

- Dir-se-ia que, para você, comunicação é sinônimo de poesia…

FR: A comunicação do sonho, da imanência, é para nós cada vez mais necessária, cada vez mais indispensável. Mas deve-se logo acrescentar: ela só pode desenvolver-se num regime democrático. A democracia, como dizia Churchill, é o pior dos regimes, com exceção de todos os outros. A comunicação na democracia é a pior das comunicações, mas não há outra forma de se comunicar verdadeiramente. Simplesmente porque é necessária a dialética do sim e do não, da provocação e da resposta, que confere ao nosso discurso a justa medida, a parte do sol e da sombra.

- Que tem a dizer a quem o considera demasiadamente perdido nas nuvens da poesia, sem os pés na terra, enquanto o mundo está repleto de sofrimentos, dramas e convulsões?

FR: Não há ninguém mais realista que os poetas. Em 1936, Paul Eluard escreveu: “A Terra é azul como uma laranja”. Todos riram. Quando o primeiro engenho espacial americano, o Pioneer, fotografou a Terra, “viu-se”, que a terra parecia uma laranja azul. Eluard antecipara-se ao Pioneer! Somente os poetas são realistas. Eles vão ao essencial.
Isso me faz pensar numa entrevista que realizei com Mão Tse Tung. A última pergunta que lhe fiz era a seguinte: “Senhor Presidente, acredita que o comunismo tenha um futuro político na China?”. Ele me deu uma resposta negativa. Isso aconteceu no salão do Palácio dos Imperadores, na Cidade Proibida, repleto de imensas poltronas cobertas com capas brancas. Atrás de Mao estavam Lin Biao e Zhou Enlai. À resposta do Presidente, Lin Biao teve um sobressalto, Zhou Enlai manteve-se impassível – o que já demonstrava a diferença entre os dois.
Mao prosseguiu: “Sabe o que são, para nós, 250 ou 300 anos? Apenas um terço da era dos Tang… Os Tang reinaram neste país durante 1000 anos”. Essa resposta de Mao era sutil e bela. Creio que ele quis dizer-me: para você, ocidental, que é o futuro político? A próxima eleição? Para nós o futuro político são três séculos…
E pensei: que extraordinária contribuição à história e à cultura do mundo, ao conhecimento profundo dos homens e das coisas, a China liberada poderá oferecer, simultaneamente inspirada nos preceitos de Confúcio, do Tao, dos antigos poetas chineses, de Sun Yat Set e de Mao Tse Tung… Esse magnífico facho da história universal, há 5000 anos tão isolado do resto da humanidade, refulgirá então para nós, ofertando-nos sua memória como um inestimável tesouro perdido e finalmente reencontrado…

* “Entrevista – Frèdèric Rossif” In: CÓCCO, Maria Fernandes. ALP, 8 - análise, linguagem e pensamento: a diversidade de textos numa perspectiva socioconstrutivista. São Paulo: FTD, 1995.

domingo, 10 de agosto de 2008

CARTA AOS "PUROS"

Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros
E em cujos olhos queima um lento fogo frio
Vós de nervos de nylon e de músculos duros
Capazes de não rir durante anos a fio.

Ó vós, homens sem sal, em cujos corpos tensos
Corre um sangue incolor, da cor alvar dos lírios
Vós que almejais na carne o estigma dos martírios
E desejais ser fuzilados sem o lenço.

Ó vós, homens iluminados a néon
Seres extraordinariamente rarefeitos
Vós que vos bem amais e vos julgais perfeitos
E vos ciliciais à idéia do que é bom.

Ó vós, a quem os bons amam chamar de os Puros
E vos julgais os portadores da verdade
Quando nada mais sois, à luz da realidade,
Que os súcubos dos sentimentos mais escuros.

Ó vós que só viveis nos vórtices da morte
E vos enclausurais no instinto que vos ceva
Vós que vedes na luz o antônimo da treva
E acreditais que o amor é o túmulo do forte.

Ó vós que pedis pouco a vida que dá muito
E eriges a esperança em bandeira aguerrida
Sem saber que esperança é um simples dom da vida
E tanto mais porque é um dom público e gratuito.

Ó vós que vos negais a escuridão dos bares
Onde o homem que ama oculta o seu segredo
Vós que viveis a mastigar os maxilares
E temeis a mulher e a noite, e dormis cedo.

Ó vós, os curiais; ó vós, os ressentidos
Que tudo equacionais em termos de conflito
E não sabeis pedir sem ter recurso ao grito
E não sabeis vencer se não houver vencidos.

Ó vós que vos comprais com a esmola feita aos pobres
Que vos dão Deus de graça em troca de alguns restos
E maiusculizais os sentimentos nobres
E gostais de dizer que sois homens honestos.

Ó vós, falsos Catões, chichisbéus de mulheres
Que só articulais para emitir conceitos
E pensais que o credor tem todos os direitos
E o pobre devedor tem todos os deveres.

Ó vós que desprezais a mulher e o poeta
Em nome da vossa vã sabedoria
Vós que tudo comeis mas viveis de dieta
E achais que o bem do alheio é a melhor iguaria.

Ó vós, homens da sigla; ó vós, homens da cifra
Falsos chimangos, calabares, sinecuros
Tendes cuidado porque a Esfinge vos decifra…
E eis que é chegada a vez dos verdadeiros puros.

Vinicius de Moraes,
Cf. em Para viver um grande amor: crônicas e poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. pp.59-60

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O homem; as viagens

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte – ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro – diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto – é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato o é o Sol, falso touro espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só o resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
por o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeita alegria
de con-viver

Carlos Drummond de Andrade*

*Cf. em:
ANDRADE, Carlos Drummond de. Seleta em prosa e verso.
RJ, J. Olympio – Brasília, INL-MEC, 1971.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

GALATÉIAS DE PIGMALIÕES INSEGUROS

Conversávamos noutro dia desses sobre a declaração de uma amiga, eu e outro amigo que também a conhecia bem. Ela manifestava num momento de desabafo seu desejo e atração física por alguém, afirmando querer transar com o cara sem nenhum tipo de envolvimento afetivo pelo mesmo, apenas uma noite de puro sexo. Meu amigo de pronto ficou em choque e numa argumentação no mínimo suspeita discursava sua visão sobre aquilo que acreditava ser a verdadeira essência feminina:

- Este tipo de coisa não é o papel da mulher, pois assim estaria se igualando ao homem. Mulher é o típico sexo frágil, portanto, mais sensível, carinhosa, meiga. Nenhum comportamento semelhante pode ser bem visto por nós homens. Pois este tipo de coisa descaracteriza e contradiz a essência da mulher. Sexo sem afeto é coisa de homem.

Assim, no calor do diálogo percebi que o seu discurso era comum em nossa sociedade. Ele me fez lembrar da lenda romana contada por Ovídio em sua peça “Metamorfose”.

Reza a lenda que um brilhante escultor solitário da Ilha de Chipre, Pigmalião, era assediado pelas mais belas mulheres do lugarejo em que vivia. Certa ocasião, Pigmalião recebe a visita da deusa Afrodite em sonho. Provocada pelos pedidos das mulheres do lugar, Afrodite aparece ao artísta para tentar fazer com que se casasse com alguma delas. Ao acordar inspirado pela beleza da deusa, Pigmalião faz (Galatéia), a mais bela estátua esculpida. Sua obra de arte agora torna-se o objeto de sua paixão. Quando Afrodite retorna para cobrar alguma decisão por parte do artista, ele pede a deusa que faça com que a escultura seja sua esposa. O pedido é atendido, e Pigmalião beija a estátua que prontamente se transforma numa linda mulher de carne e osso. E ambos se amaram para o resto das suas vidas.

O que há de comum entre a lenda de Pigmalião e a convicção do meu amigo sobre a natureza da mulher?

A resposta está no fato de que nós homens sofremos do mal de Pigmalião, inventamos nossas próprias mulheres. Elas são frutos dos nossos devaneios e sonhos machistas. Assim acontece também nos rincões da religião, nosso ocidente machista perpetua a invenção da mulher pelo mito bíblico do gênesis. Esta então seria tirada solidariamente da costela de um solteirão para em seguida enganá-lo e assim parir o pecado.

Ora, sabemos por Flávio Josefo que na sociedade judaica ainda do I sec. d.C. a mulher era por lei considerada inferior ao homem em todas as coisas, pois fora a ele que “Deus” teria entregado o poder. Nos textos religiosos a mulher estava na mesma categoria das crianças, dos surdos, dos cegos, dos deficientes mentais, e dos escravos pagãos. Até filosofia clássica revelou-se misógena, quando pela boca de Aristóteles proclama a mulher como um “Macho deformado” e portanto inferior intelectualmente ao homem.

No “Banquete” de Platão, diálogo que trata do amor, o mais belo discurso é feito por Diotimia que, sendo mulher, reproduzia na íntegra a mensagem divina acerca do amor. Do mesmo modo “as Pitonisas” incapazes de pensar por si mesmas, constituem o canal seguro do escoamento do pensar dos deuses. O fato é que, a misogenia grega e o preconceito judaico prefaciaram as relações de poder no seio da Igreja. Assim, Tertuliano, já nos primeiros séculos do cristianismo acusava as mulheres: “A sentença de Deus é sobre vosso sexo; e seu castigo pesa ainda mais sobre vós. Vós sois a porta do demônio”.

Também sob a pena da fogueira na Idade Média durante quatro séculos, inquisidores com a ameaça de caça às bruxas ensinavam às mulheres como deveriam se comportar: dóceis, recatadas, limitadas ao afazeres domésticos. Somente ao homem era permitida ambição profissional. O medo de ser queimada viva se fez tanto no inconsciente coletivo que a mulher foi inventada e criada num cuidado extremo. Educadas por nossos pais e avós afim de serem aceitas pela sociedade sob as bandeiras do recato.

Obviamente como homem sou também responsável pela invenção de certo padrão de mulher. Confesso, a ideia de uma Dulcinéia de Taboso povoa e muito meu imaginário Quixotesco. No entanto, vemos através de Nietzsche a Habermas que os valores passados por nossa tradição não são eternos. E que portanto, não foi Deus, Alá, Jesus, ou Buda que fez os céus se abrirem descortinando padrões sociais que hoje moldam nosso comportamento. Eles diziam que nosso conhecimento da realidade é condicionado pelo “interesse”, ou seja, a estruturação dos valores a serem vividos pela sociedade está intrisecamente ligada aos anseios do grupo dominante.

Então é importante sabermos que é a sociedade “machista” que limita os espaços da mulher, e por conseqüência não permite a emergência da figura feminina no pensar e no protagonismo de sua ação na construção do mundo.

Mas, se esta sociedade patriarcal arbitrariamente atribui valores e aptidões a ambos os sexos, cabe aqui a relevância da preocupação do meu amigo, e a sua infeliz e desesperada tentativa de classificar a mulher; O que faz da mulher mulher? Qual a competência de sua feminilidade?

Por séculos escritores seguiram inventando as mulheres. No papel, as letras redesenhavam o imaginário que povoaria as mentes de todos nós, leitores e leitoras. As mulheres foram o que eles diziam que eram. As mais variadas nuances da literatura não me deixa mentir:

José de alencar por exemplo, moldou a mulher com diversos rostos, mostrando sempre a represália que sofriam a desobedecerem os padrões estabelecidos; É o caso da personagem Lúcia em Lucíola ou Iracema. Em Machado de Assis surgiu a mulher dissimulada, sedutora, sonsa... Desde Helena e seus segredos, passando por D. Severina e seus braços até a polêmica Capitú. Rubem Braga menos doutrinário constrói a imagem de seus próprios sonhos de Prazer, bela imagem; Quando, na crônica “Não mais aflitos” fala do prazer de contemplar uma mulher sem estar apaixonado.

Também “As Brumas de Avalon”, livro que virou filme, vemos o imperialismo da cultura cristã católica medieval extinguindo a religião dos (druídas), substituindo a entidade sagrada e fértil da deusa pela figura da casta Virgem Maria. A religião dos druídas foi satanizada porque no fundo enfocava aspectos de uma espiritualidade marcadamente feminista (aqui não se deve tomar a palavra pelo termo moderno). Não existia um Deus, mas a deusa (natureza), não existia sacerdotes, mas sacerdotisas. Quem orientava a mística daquela sociedade eram as mulheres, temidas, e portanto, respeitadas não pelo poder que tinham, mas pelo que representavam: O talento criativo e a fertilidade como algo intrínseco à natureza feminina.

As sacerdotisas de Avalon expunham o que todas as mulheres manifestam, a criação ligada à vivência de uma “alma selvagem” que assusta os homens e aos padrões de comportamento impostos. Esse talento feminino é limitado pelo freio social, e quase sempre, estabelecidos por homens inseguros diante de um potencial criador inato ou talento artístico capaz de brilhar. Nas palavras de Simone de Beauvoir vemos a mulher assumir o modelo feminino imposto pela sociedade: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher” “Eu sou aquilo que consegui fazer a partir do que me fizeram”.

Percebemos, nossa visão da realidade feminina foi de tal maneira distorcida que é impossível transcender a meras posições culturais e preconceituosas impressas ao longo da história. Tendo em vista que tudo quanto conhecemos sobre o ser mulher foram aspectos desenvolvidos em detrimento do domínio histórico-social sofrido a milênios. Pois na medida que é inferiorizada, ela passa a crer na própria inferioridade e a perpetuá-la à filhos e filhas enquanto mãe-educadora.

Por isso, acredito que até para a própria mulher foi negado o direito de conhecer-se completamente, já que a mesma sempre foi vista à sombra masculina. Portanto, nós, homens e mulheres devemos admitir nossa total ignorância em relação à competência da alma feminina. Talvez seja por isso que a praticidade masculina aliada à sua ignorância faça com que inventemos nossas mulheres, seja por letras poéticas e misógenas, seja por atitudes e argumentos preconceituosos insuflados por medo de que sua criatividade revele a inferioridade masculina.

Nossa esperança é transcendamos à meros estereótipos míticos, e que no futuro homem e mulher sejam uma só voz a decidir os destinos do Universo. Pois na visão belíssima de Theilhard Chardin, a história evolui no sentido de uma cristificação universal, onde a plenitude do amor esgota as diferenças.

Sem estátuas e sem costelas!

Wellington Araújo
Estudante de Teologia

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Alberto Caeiro*

Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma?
E sobre a criação do mundo?
Não sei.
Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar.
É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas?
Sei lá o que é mistério!
Quem está ao sol e fecha os olhos;
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa
Metafísica? Que metafísica tem aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber o que não sabem?
“constituição íntima das cousas”...
“sentido íntimo do Universo”...
Tudo isto é falso,
Tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando,
E pelos lados das árvores um vago ouro lustroso
Vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta a dentro
Dizendo-me,
Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina).
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?)
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo
E ando com ele a toda hora

*heterônimo de Fernando Pessoa

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Redes de Sertão

Mário Henrique Castro Benevides*

Resenha de Livro: BOLLE, Willi. Grandesertão.br: O romance de formação do Brasil. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2004, 480 páginas.

A primeira coisa que precisa ser dita sobre este trabalho de Willi Bolle, é que ele se constitui como uma pesquisa e uma apresentação de enorme fôlego. Escrito décadas após o início de suas investigações, muito tempo depois da primeira publicação do autor sobre o mesmo assunto, grandesertão.br parece ser tanto um conjunto acumulado de seus esforços como uma nova etapa de seu longo percurso na leitura analítica da obra de João Guimarães Rosa.

O livro, dividido em Sete Capítulos, defende a tese de que Grande Sertão: veredas, ficção publicada em 1956, é um “romance de formação”: uma leitura crítica e uma interpretação aguçada da realidade brasileira feita por Rosa, encaixando-se assim, na classe de um texto também social e político. Vinculadas a esta base estão duas hipóteses que o autor logo cuida de apresentar: primeiro, o romance de Guimarães Rosa apontaria como o problema histórico capital no Brasil, a falta de diálogo entre as classes sociais. Tal teorização roseana estaria sutilmente guardada dentro da narrativa, na esfera da forma. Segundo, Grande sertão: veredas seria, nesse contexto de texto interpretativo, uma reescrita do clássico de Euclides da Cunha: Os sertões, de 1902. Uma reescrita no sentido de uma visão nova acerca de uma realidade confrontada; uma observação pautada na discordância, não apenas estética entre esse e aquele escritor, mas, igualmente, uma discordância sócio-política entre suas leituras do Brasil.

O formato geral do texto de Bolle reforça a idéia de que se trata uma união de antigos trabalhos a novas investidas, por repetir, em diversos pontos, essas hipóteses iniciais. Com isso os capítulos ganham relativa autonomia, servindo quase como ensaios separados sobre aspectos diferenciados do discurso no Grande sertão. Lendo o todo, no entanto, percebe-se a importância do conjunto e as tentativas de uma síntese profunda do discurso de Rosa – uma tentativa multifocal de apreender todas as “redes”, como Bolle define, do labirinto que é o romance. No mais, o livro torna-se, em alguns momentos, difícil por lidar com muitas realidades diferenciadas (estéticas, políticas, discursivas, históricas) e por ter como objeto o espaço difuso existente entre ficção e história. Mas a separação temática/ensaística dos capítulos, bem como a escrita fácil e empolgante de Bolle, favorecem a compreensão do ensaio completo, recuperando sempre o foco reflexivo do texto.

Após o primeiro Capítulo, que serve como uma introdução importante ao corpo da pesquisa apresentada, uma segunda separação, fundada em suas hipóteses-mestras, é indicada pelo próprio Bolle na estrutura do livro: a primeira parte, composta pelos Capítulos II a V discute o texto de Guimarães em contraste com o trabalho de Euclides, lidando com temas como: o sertão como realidade e pensamento, o jagunço e suas redes de relações, o pacto com o Diabo como símbolo de uma “lei fundadora” e a imagem da personagem Diadorim e os símbolos que a envolvem, respectivamente. A segunda etapa é uma tentativa de sintetização da idéia de que o livro de Rosa trabalha com a falta de diálogo entre as classes sociais, o que Willi Bolle irá definir da seguinte maneira: “[o] retrato do Brasil neste romance é centrado no problema da nação dilacerada (pág 263, grifo meu).

Essa segunda parte (Capítulos VI e VII) apresenta as visões diversas que a tradição dos ensaios construiu para o Brasil: Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Antônio Candido – todos têm seus textos e teorias visitados pelo autor de grandesertão.br. Bolle os visita enquanto traça o mapa dos mapas interpretativos e suas nuances; uma leitura de superfície, resumida, que tem como interesse a aplicação de um estudo comparativo que coloque esses ensaios frente ao entendimento de Guimarães Rosa. Nesta parte, em especial, podemos ver o cuidadoso esforço de Bolle em costurar uma reflexão que tenha bases sólidas na Teoria Política e na história do Pensamento Social Brasileiro, aproximando leitura ficcional de observação científica, procurando no universo da forma e da estrutura textual, as sutilezas do autor de Grande Sertão: veredas e culminando na observação de sua linguagem inventada (a de Rosa) como centro de uma critica ampla da realidade do país e de, como lembra Candido, um processo de pesquisa ele próprio: o romance.

Bolle analisa discursos, situa-os em contextos históricos e estéticos, liga-os a possíveis origens e a possíveis funções. Nesse ínterim, as dificuldades estão armadas em dois pontos fundamentais. a já mencionada amplitude dos temas correlatos com a conseqüente extensão por vezes repetitiva das idéias; e uma aparente constância de pressupostos que se querem provados. O segundo caso é mais compreensível: o trabalho, já em andamento há anos, já em processo de inquestionável maturidade, acaba por confundir começo e resultado em sua apresentação. O formato de múltiplos ensaios que se completam pode ter aqui o seu maior impacto negativo: ele reitera a impressão de que o autor já sabe do que fala e retira a doce ilusão, comum em textos de análise, de que o leitor chega junto com o autor às conclusões finais. Esse pequeno pecado é mais estilístico que epistemológico embora arrisque muitas más interpretações.

No que diz respeito ao jogo complexo das análises interdisciplinares, o eixo largo de temáticas que a pesquisa de Bolle institui não fere, em primeira instância, nenhum princípio de concisão. É óbvio que, por lidar com tantas idéias e com tantos precursores diferentes, Bolle precisa fundar um espaço e uma rota de explicação que não permita reducionismos. E o faz com habilidade. Mas, mais uma vez, ao estruturar o corpo da exposição, ao escolher a ordem interna de cada capítulo – principalmente os da primeira parte – o autor retoma hipóteses e insere novas questões, imprimindo uma mecânica de digressões que confundirá o leitor menos atento. As repetições, didáticas na maioria das passagens, aparecem, ironicamente, nesses trechos de novas composições como peças desnecessárias do discurso, sem no entanto, se tornarem problemas outros que não o da ampliação demasiada do texto – o que pode causar dificuldade de compreensão do todo, mais uma vez, por parte de qualquer leitor “desligado”.

Essas pequenas complicações, de ordem estrutural e textual, não desmerecem de modo algum a tese e a capacidade de sua apresentação por Bolle. Uma vez dentro do texto, armado do tempo e da disposição que ele merece, elas são facilmente ignoradas. O texto é apoiado por recursos como mapas e esquemas cronológicos sobre o romance e facilita bastante o entendimento para quem teve uma experiência mais difícil com o livro de Rosa.

O livro é denso, complexo. É separado em uma ordem que passa a fazer sentido ao longo de sua leitura. Exige concentração, um conhecimento mínimo dos “ensaios de formação” do pensamento social brasileiro, bem como, obviamente, uma leitura de Grande sertão: veredas e de Os sertões. Tem uma linguagem rápida embora longa, e passa com velocidade por uma revisão de literatura necessária. Põe o leitor em movimento e o coloca, sem muitos badulaques, no sertão e na linguagem literária. Um trabalho que assume as dificuldades, que não são poucas, e atinge, enfim, seu objetivo: uma leitura de Grande sertão como um romance de formação. A viagem recomeça e torna-se possível e prazeroso alcançar o conjunto de boas idéias que a proposta suscita. E isso para sociólogos, antropólogos, historiadores, letrados, curiosos e admiradores de João Guimarães Rosa e de sua forma sabidamente original de enxergar o mundo.

* Sociólogo, mestrando em Sociologia da Universidade Federal do Ceará.